Um conselho para começar bem o Matrimônio

Um conselho para começar bem o Matrimônio

Texto de Jonathan B. Coe

Recentemente, um amigo meu, pediu-me para ser testemunha em seu casamento. Senti-me honrado, mas imediatamente o ex-pastor dentro de mim — converti-me do protestantismo em 2004 — começou a pensar: “Se eu tivesse meia hora para falar com um casal de noivos cristãos, que conselho eu daria a eles antes de selarem os votos matrimoniais?” Como resultado dessa meditação, escrevi as seguintes linhas, as quais agora publico em primeira mão.

Como alguém que já passou por um divórcio e depois recebeu, alguns anos atrás, uma declaração de nulidade da Igreja Católica, abordo o tema desse sacramento com tremor e consciência de quão frágil pode ser essa união. Figurativamente falando, eu ando, como Jacó, “mancando por causa da coxa” (Gn 32, 32), e o pouco de sabedoria que tenho sobre esse grande mistério, não foi sem sacrifício que o recebi. Capitães do mar que passaram por naufrágios têm histórias pra contar.

Há uma história ligada a G. K. Chesterton repetida tantas vezes que muitas pessoas acreditam que seja verdadeira, ainda que não haja disso nenhuma prova documental. Certa vez, um jornal diário de grande circulação na Inglaterra, London Times, fez uma pesquisa com alguns escritores famosos perguntando-lhes: “O que há de errado com o mundo hoje?”. A resposta de Chesterton foi simples:

Prezado Senhor,

Eu.

Atenciosamente, G. K. Chesterton

Um casal pode enfrentar muitos desafios — dificuldades com os sogros, crises econômicas, questões de saúde —, mas, mais frequentemente do que imaginam, será de dentro de seus próprios corações que virão os seus maiores problemas. A Igreja Católica ensina que “pelo Batismo todos os pecados são perdoados: o pecado original e todos os pecados pessoais, bem como todas as penas devidas ao pecado“, mas “permanecem no batizado certas consequências temporais do pecado, assim como uma inclinação para o pecado a que a Tradição chama concupiscência” (Catecismo da Igreja Católica, § 1263-1264).

Concupiscência é a herança que recebemos de nossos primeiros pais e que se caracteriza por “transferência de culpa”: quando Deus confrontou Adão, este acusou Eva e a mulher, por sua vez, acusou a serpente. O casal que se coloca diante do altar sabendo que os seus maiores problemas emergem de um coração que “é o que há de mais enganador, e não há remédio, quem o pode entender?” (Jr 17, 9), já começa com uma grande vantagem. Essa é uma das razões pelas quais católicos que vivem verdadeiramente a fé — e cristãos devotos em geral — possuem taxas significativamente baixas de divórcios. A fé praticada todos os dias lembra o casal da concupiscência permanente e insidiosa contra a qual eles devem lutar, prevenindo-os do erro de ficar trocando acusações mútuas e intermináveis.

O escritor e psicólogo protestante Larry Crabb explica que o principal motor da concupiscência “é o egocentrismo justificado, o egoísmo arraigado que se considera perfeitamente razoável e até aceitável ter, face ao modo como fomos tratados”. Faz parte de nosso DNA adâmico. Para exemplificar, o autor conta a história de um amigo que lhe confessou ter cometido adultério, dizendo que “sua mulher não o apoiava nas tensões com que ele tinha de lidar diariamente, a ponto de seu desejo de ser estimado por uma mulher ficar fora de controle”. Depois de vários anos aconselhando casais, Larry descobriu que pessoas que traem seus cônjuges geralmente “vêem o seu pecado como se fosse uma ‘necessidade’ para o bem-estar de sua alma, como se ele fosse algo mais compreensível do que errado“.

Sempre que me deparo com algum jovem casal de namorados, luzes vermelhas de alerta se acendem diante de mim. Observando o comportamento que um mantém em relação ao outro, é como se eles dissessem: “Esta pessoa fará todos os meus sonhos virarem realidade”; “Esta pessoa fará de mim a pessoa mais feliz do mundo“. Isso faz-me pensar o quanto é importante que as pessoas realmente procurem aconselhar-se com algum bom sacerdote ou alguma pessoa virtuosa de sua confiança, antes de se aventurarem numa empreitada tão séria como é o Matrimônio.

Muitos talvez tenham crescido com significantes necessidades emocionais não correspondidas em suas famílias de origem, e estejam esperando ver esse vazio preenchido por seus futuros cônjuges. Acontece, porém, que, como escreve C. S. Lewis, nossa espécie foi criada na perfeição do Éden e para o Céu. Portanto, nesta existência decaída, sempre haverá o sentimento de que “algo está faltando”, não obstante as inúmeras bênçãos com que sejamos agraciados. Este mundo não é o bastante.

Por causa desses fatores, nosso futuro cônjuge pode acabar se tornando um ídolo. Podemos cair na ilusão de que o outro seja capaz de saciar todas as nossas necessidades não correspondidas. Real e infelizmente, as pessoas fabricam para si deuses muito ruins. Se eu tivesse meia hora com um casal de noivos, eu os encorajaria a trabalharem duro em duas coisas:

1.º Seja tão feliz o quanto puder independentemente do seu futuro cônjuge. As quatro maiores fontes de felicidade para o homem são a sua fé, a sua família, os seus amigos e o seu trabalho. Maximize, portanto, a sua felicidade pessoal nessas áreas e, só então,

2.º Volte-se para o seu companheiro com uma grande e sincera disponibilidade em servi-lo. Seja proativo em identificar quais são as necessidades dele ou dela e viva a Paixão de Cristo no seu relacionamento — isto é, encarne a humildade e o amor sacrificial pelo outro, ainda que você não esteja “a fim”.

A Missa é um “tutorial” de como fazer isso: nela, todos os domingos, o sacrifício de Cristo na cruz é representado e renovado por nós. Se as duas partes em um relacionamento imitarem essa entrega, não só estarão começando muito bem o sacramento do Matrimônio, como deixarão uma profunda mensagem contra-cultural à nossa civilização, tão marcada pelo narcisismo e pelo egoísmo. Como já dito, trata-se apenas de um bom começo, mas, como os pães e os peixes daquele menino do Evangelho, Cristo pode muito bem multiplicá-los, saciar a multidão e ainda fazer restarem doze cestos cheios de sobras — e essas, por sua vez, nós as podemos distribuir a todos os viandantes fatigados e famintos que encontrarmos ao longo do caminho.

Fonte: padrepauloricardo.org

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