Ó Jesus doce, ó Jesus bondoso: Uma formação com Raniero Cantalamessa

Ó Jesus doce, ó Jesus bondoso: Uma formação com Raniero Cantalamessa

O Ave verum encerra-se com uma exclamação Dirigida a pessoa de Cristo: O Iesu dulci, o Iesu pie. Essas palavras nos apresentam uma imagem tão cara e tão evangélica de Cristo: o “Jesus doce e pio “, isto é, clemente, compassivo, que não quebra o caniço vergado e não apaga o lume fumegante. O Jesus que um dia disse: “Aprendei de mim que sou manso e humilde de coração“ (Mt 11,29).
Mas a mansidão de Cristo não justifica, antes torna ainda mais estranha e odiosa a violência que hoje se registra em relação à sua pessoa. Na estrofe sobre o “pio pelicano “ vimos como Cristo pôs fim, com o seu sacrifício, ao perverso mecanismo do bode expiatório, sofrendo ele próprio as consequências. Convém observar com tristeza que este perverso mecanismo é novamente praticado, hoje, em relação ao Cristo. Contra ele é desafogado todo o ressentimento de um certo pensamento leigo nas recentes manifestações de conúbio entre a violência e o sagrado. Como é de praxe, no mecanismo do bode expiatório, é escolhido o elemento mais fraco para atirar-se contra ele. ”Fraco”, aqui, no sentido de que pode ser escarnecido livre e impunemente, sem que se corra risco algum de reação hostil, tendo os cristãos, já há tempos, deixado de defender a sua fé pela força.

Não se trata somente de pressões para retirar o crucifixo de lugares públicos e o presépio do folclore natalino. Seguem-se, sem cessar, romances e espetáculos nos quais se manipula ao bel prazer a figura de Cristo, sob o respaldo de fantasiosos e inexistentes novos documentos e descobertas. Está virando moda, uma espécie de gênero literário.

Sempre existiu a tendência a revestir o Cristo nas vestes da época da ideologia. Mas, ao menos no passado, embora discutíveis, eram causas sérias e de grande porte: o Cristo idealista, socialista, revolucionário… A nossa época, que tem obsessão pelo sexo, já não sabe representar Jesus senão como um gay ante litteram, alguém que prega que a salvação vem da união com o princípio feminino e dá o exemplo casando-se com a Madalena.

Especula-se sobre a grande ressonância que o nome de Jesus possui, e sobre o que isto significa para grande parte da humanidade, a fim de garantir uma boa popularidade a baixo custo ou chocar com mensagens publicitárias que abusam de símbolos e de imagens evangélicas, como a da Última Ceia. Tudo isso é parasitismo literário! Escandalizam-se e gritam contra a intolerância e a censura, quando os crentes, em casos extremos, reagem enviando aos responsáveis cartas e telefonemas de protesto. Convém observar que a intolerância há tempos mudou de campo no Ocidente: de intolerância religiosa tornou-se intolerância da religião!

A própria imagem de Jesus “manso e doce” oferecida pelo Ave Verum nos proíbe de deter-nos no estágio da denúncia do abuso. Jesus foi além da própria não-violência; pregou a misericórdia e o amor pelos inimigos. Ainda que os cristãos se tornem minoria olhada com hostilidade, como vem ocorrendo em alguns países a Eucaristia não nos permite fechar-nos, ser complacentes com sistemas de perseguição, levantar muros ou divisões entre nós e o resto do mundo. Ela é a escola onde aprendemos “de que espírito é o Cristo”, o “estilo” de sua missão.

“Sonho com uma igreja que seja uma `Porta Santa` sempre aberta, que abrace a todos, cheia de compaixão, que compreenda as penas e os sofrimentos da humanidade, uma igreja que proteja, console e guie cada nação para o Pai que nos ama”. Quem escreveu essas palavras foi o pranteado cardeal F. X. Van Thuan, a quem o regime comunista infligiu treze anos de cárcere, nove dos quais em completo isolamento, em condições desumanas. A força para escrever aquelas palavras foi-lhe dada pela Eucaristia, que durante anos ele celebrou escondido, com três gotas de vinho e uma de água na palma de uma mão, e uma migalha de pão na outra. Com a Eucaristia, dizia, o mundo inteiro estava presente em sua cela. Nele, e em tantos outros mártires de nossa época, a Eucaristia mostra o que está por trás daquilo que, em termos já batidos pelo uso, chamamos de “presença real”.

Fonte: Cantalamessa, Raniero. “ISTO É O MEU CORPO” Á luz de dois hinos eucarísticos. São Paulo: Edições Loyola.2009.

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