Que Bíblia devo adquirir?

Que Bíblia devo adquirir?

* Artigo escrito por Marco Antônio, membro do Movimento Bíblico Nova Jerusalém e acadêmico da Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – MG

Esta formação se destina a pessoas que estão se iniciando na leitura ou no estudo da bíblia. Para elas propomos algumas perguntas que sempre nos fazem. Cremos que elas refletem muitas das dúvidas que as pessoas tem quando desejam iniciar uma caminhada na Bíblia.

Como escolher uma Bíblia Católica?

Quem trabalha com pastoral sempre ouve perguntas do tipo: Qual a melhor bíblia católica? Qual a mais fácil de ler e entender? Qual a melhor bíblia para se usar num círculo bíblico? Que bíblia devo comprar Não se espante com sua dúvida. Elas são muito comuns. É que há, hoje, tantas e tão diferentes edições da bíblia, sejam católicas ou não, que dúvidas, na hora de comprar ou se adotar uma edição da bíblia para um grupo, são normais. Mas propomos alguns passos para a decisão.

PRIMEIRO PASSO:

Como reconhecer se uma bíblia é mesmo católica, ou possui todos os livros adotados por nossa igreja?

Há bíblias editadas por muitas denominações, editoras e instituições cristãs. Mas nem todas possuem todos os livros bíblicos adotados pela igreja católica. A bíblia católica tem mais sete (7) livros que as edições de igrejas protestantes. Por que isto? Sempre houve muitas discussões sobre quais livros que se liam entre os judeus eram realmente inspirados por Deus. Isto continuou com os cristãos.

Por que isto?

Porque quando surgiram os judeus-cristãos, no início do cristianismo, as autoridades judaicas, após a destruição do Templo de Jerusalém pelos romanos, e com o crescimento do grupo cristianizado, resolveram discutir esta questão em Jamnnia, por volta dos anos 90-100 da nossa era.Eles estabeleceram critérios para dizer se um livro era inspirado ou não por Deus. Estes critérios, é claro, excluíram cartas e escritos de judeus cristianizados ( como São Paulo ), evangelhos etc.

Os critérios, entre outros, excluíam os livros escritos em grego, língua na qual os cristãos divulgavam suas cartas e evangelhos, e a versão grega dos escritos judaicos utilizada por cristãos. Daí nasceu um chamado “canom” judaico, que é a lista de livros autorizados e reconhecidos como inspirados pelos judeus. Isto aumentou o afastamento entre judeus estritos e judeus cristianizados, como Paulo e tantos outros, que já usavam uma versão em grego dos livros hebraicos, conhecida como tradução dos Setenta, realizada em Alexandria, por volta do ano 250 antes de nossa era, que é a maior fonte das citações de textos do Antigo Testamento no Novo Testamento.

A tradução dos Setenta era muito usada também por judeus da diáspora, que estavam fora da Palestina. É que eles falavam o grego, e quase já não usavam o hebraico no tempo de Jesus. A tradução dos Setenta continha livros que não foram aceitos no canom de Jamnia.

Vários concílios (reuniões de bispos e dirigentes) cristãos discutiram este tema: quais livros deveriam ser aceitos pela igreja, reconhecidos como de inspiração divina. Quando houve a reforma de Lutero, no século XVI, ele optou por rechaçar os livros que não foram aceitos pelos judeus em Jamnia, colocando-os ao fim dos livros do canom judaico, mas reconhecendo-os como livros de valor espiritual. Estes livros são chamados de deuterocanônicos (segundo canom) por católicos ou de apócrifos por setores protestantes. Estes sete livros são:

  • 1° Livro dos Macabeus (canom da Setenta)
  • 2° Livro dos Macabeus (canom da Setenta)
  • Tobias (canom da Setenta)
  • Judite (canom da Setenta)
  • Sabedoria (canom da Setenta)
  • Baruc (canom da Setenta)
  • Eclesiástico ou Sirácida (canom da Setenta, em parte segundo alguns)

Também na versão da Setenta havia trechos agregados ao livro de Daniel e de Ester. A bíblia católica acabou aceitando sete livros a mais que o canom judaico, e alguns acréscimos de Daniel e Ester.

Conclusão: Uma bíblia segundo o canom católico possui estes livros: Tobias, Judite, Baruc, Sabedoria, Sirácida (ou Eclesiástico), e 1° e 2° de Macabeus. Fácil, não? Se tiver estes livros é uma bíblia católica!

Elas também possuem o IMPRIMATUR, que é uma declaração de um bispo católico dizendo que a bíblia está conforme o canom de nossa igreja.

SEGUNDO PASSO:

Que bíblia católica escolher? Neste passo a pergunta central é: Para que fins você vai usar a bíblia? Para estudo aprofundado? Para círculos bíblicos e nas comunidades? Para celebrações? Para oração e leitura pessoal?

Entre as traduções e edições mais conhecidas há aquelas mais apropriadas para estudo. Outras se adaptam mais a círculos bíblicos e uso em comunidades, etc.

A – Para celebrações: A CNBB normatizou que o texto da Bíblia Sagrada, edição da CNBB é a que deve ser usada. Isto padroniza as leituras litúrgicas da Celebração da Palavra em todo o país: o que se lê no Amazonas é o mesmo trecho que é lido no Rio Grande do Sul. Assim, se é para celebrações o indicado é a Bíblia Sagrada, edição da CNBB.

B – Para uso nas comunidades, grupos e círculos bíblicos: Neste caso há várias edições que servem para este objetivo, que tem o requisito de linguagem simples, de fácil entendimento. Melhor ainda se tiver notas explicativas pastorais, para melhor entendimento do povo. Destacam-se:

1ª. Bíblia Pastoral (Editora Paulus)

É uma bíblia de linguagem simples, fácil. Editada inicialmente em 1991, com notas pastorais. Isto facilita o entendimento. Suas notas refletem um pouco a Teologia da Libertação, muito influente na época de sua primeira edição.

Possui títulos para trechos, mas alguns títulos talvez não sejam os melhores. Talvez já fosse o caso de uma revisão em títulos e notas.

Mas é uma bíblia de fácil utilização nas comunidades, círculos bíblicos, muita aceita e usada com bons resultados.

2ª. Bíblia do Pão (Coedição Ed. Vozes e Ed. Santuário)

Tem linguagem fácil, e a primeira edição é de 1982. Tem notas explicativas de pé de página, que ajuda o entendimento.

Tem 24 mapas ao longo do próprio texto, o que é bom para quem lê. Tradução do grego, hebraico e aramaico por brasileiros, o que aproxima o texto de nosso modo de falar.

A introdução geral de Fr. Carlos Mesters é muito boa, e há também introduções a cada livro bíblico. Possui um grande índice bíblico-pastoral,de 62 páginas, com muitas palavras e temas, o que ajuda muito quando se deseja estudar um tema específico. Tem apêndices de pesos, medidas, etc.

3ª. Bíblia da CNBB

Tem linguagem simples, de fácil compreensão. Editada inicialmente no ano 2000, vem sendo atualizada em sucessivas edições, o que ajuda na atualidade e melhoria de tradução e texto.

Notas são só explicativas de termos, ou de alguma variação de textos e traduções possíveis. Não tem notas pastorais. Tem um glossário pequeno.

Possui introduções aos livros, que ajuda a quem lê e estuda. Tem mapas, mas fora do texto, no início e fim da bíblia.

Tradução do grego, hebraico e aramaico, mas tem o texto da Constituição Dogmática dei Verbum, que é o documento do Concílio Vaticano II sobre a Revelação Divina, explicando como nossa igreja lê, usa e reza com a bíblia.

Tem poucos apêndices. Tem linha do tempo na contracapa, o que ajuda quem precisa situar reis e personagens bíblicos no tempo.

4ª. Bíblia Sagrada de Aparecida (Ed. Santuário)

É uma edição recente, de 2006, em linguagem simples. Foi trabalho de décadas realizado por um único tradutor, o Pe. José Raimundo Vidigal, que a fez a partir de textos gregos, hebraicos e aramaicos.Por ser tradução feita por uma única pessoa possui uma uniformidade maior de linguagem.

Possui mapas no fim e início da bíblia. Tem breves introduções em cada livro bíblico. Ao final possui um grande vocabulário bíblico com 51 páginas, o que facilita o estudo de temas. Também possui um indicador de fatos e datas mais importantes da época bíblica.

Tem poucas notas: notas referenciais e para diremir algumas dúvidas do texto.

5ª. Bíblia Sagrada (Ed. Ave Maria)

É muito apreciada e utilizada por membros da Renovação Carismática Católica. É uma tradução já antiga, traduzida do francês em 1959, a partir do texto de uma bíblia muito conceituada chamada Bíblia Dos Monges de Maredsous, religiosos beneditinos da Bélgica. Isto, por si só já traz problemas de linguagem, pois a língua falada no Brasil passou por mudanças grandes desde então. Também a Bíblia de Maredsous, passou por atualização, fato que não aconteceu com a tradução brasileira.

Possui uma introdução geral ao Antigo Testamento (AT) e uma introdução particular antes de cada livro bíblico. Tem mapas ao final da bíblia, e o texto da Constituição Dogmática dei Verbum, do Concílio Vaticano II, que mostra como a nossa igreja entende a Revelação Divina, e como lê, estuda e ora com a bíblia.

Possui notas, voltadas a questões de texto, e pequenos esclarecimentos. Há pessoas que, mesmo não adotando esta bíblia para leitura e estudo, usam os Salmos desta tradução para sua oração pessoal, por considerar bonita a tradução.

Mas é quase consenso, entre os estudiosos bíblicos católicos do país, que a edição necessita passar por uma revisão/atualização.

6ª. Bíblia Sagrada: Nova Tradução na Linguagem de Hoje (Ed. Paulinas)

Esta é uma tradução que se iniciou na década de 70, com a publicação do Novo Testamento na Linguagem de Hoje. É a primeira iniciativa da SBB – Sociedade Bíblica do Brasil (de denominações protestantes) de realizar uma tradução completa da bíblia. Ela se completou com tradução dos livros do Antigo (Primeiro) Testamento e dos Livros deuterocanônicos (ver definição no tema “Como saber se uma bíblia é católica?”) realizada pela Sociedades Bíblicas Unidas, da qual participam muitas denominações, incluindo instituições bíblicas católicas, ortodoxas, etc.

Ela se propõe, como o nome diz, a ser uma tradução em linguagem corrente do país, de fácil entendimento. Tem brevíssimas introduções aos livros bíblicos, e um esquema do conteúdo de cada livro. As notas são poucas, e são mais referenciais e sobre questões de textos. Tem um pequeno vocabulário, alguns mapas e duas páginas de roteiros para temas de consolo e perdão. Há uma edição em letras grandes, para pessoas com problemas de vista, a um preço mais caro.

Bíblias de Estudo

São bíblias maiores, mais caras, com muitas notas referenciais, explicativas e textuais. Há duas bíblias com o canom católico que se situam nesta classificação:

7ª. Bíblia de Jerusalém (Ed. Paulus)

É uma edição do ano 1973, mas que vem sendo revista e atualizada. Tem muitíssimas notas, e o texto tenta se aproximar do que seriam os originais, o que faz com que algumas vezes fique distante do português corrente, usando expressões difíceis como “no-lo”, mesóclises, etc. Mas é excelente tradução para estudo.

Possui página com os diferentes canons (hebraico, Setenta) no início da bíblia. Faz sempre referência a diferenças em textos destes canons, e tem mapas no início e fim da bíblia e um grande quadro cronológico. Tem uma lista alfabética de notas mais importantes.

As notas e introduções são traduções da edição francesa da edição La Sainte Bible , edição francesa a partir de tradução da Escola Bíblica da Jerusalém, um dos mais importantes centros de estudos bíblicos do mundo. Foi traduzida a partir de originais grego, hebraico e aramaico.

8ª. Bíblia Tradução Ecumênica da Bíblia – TEB (Ed. Loyola)

É a tradução da bíblia que levou décadas para ser traduzida na França. Esta tradução começa logo no pós II Guerra Mundial, e foi um trabalho conjunto de grandes especialistas bíblicos cristãos e judeus, o que foi feito pela primeira vez na história.

Tem um número elevado de notas, e buscou se aproximar mais do texto das línguas originais, o que às vezes torna-se mais difícil para o leitor, incluindo a questão de aproximar nomes próprios o mais possível do termo hebraico.

Tem mapas, índice de principais notas, quadro cronológico extenso, notas introdutórias aos textos dos livros de muito boa qualidade, tabela de pesos e medidas. A tradução se fez a partir da edição francesa, mas a tradução foi comparada com os textos do hebraico, aramaico e grego.

Categoria Especial

9ª. Bíblia do Peregrino (Ed. Paulus)

É uma edição que se difere das demais. É uma edição que teve o Pe. Luís Alonso Shökel como autor, e saiu em 1997 na Espanha, grande biblista, místico e homem de grande espiritualidade.

É uma tradução idiomática, isto é, que está mais próxima de nosso idioma, mas que tenta manter , até na forma, o que o texto original possui em beleza e poesia. E nisto o Pe. Schökel era pessoa capaz, pois era especialista em literatura e poética hebraica.

A tradução possui um vocabulário de principais notas, mapas, introduções aos livros e o texto da Constituição Dogmática dei Verbum, do Concílio Vaticano II.

As notas explicativas são por trecho (chamados também de perícope). Visam entender cada trecho. Há ainda notas sobre questões textuais, etc.

O autor define a sua obra “como de estudo”. Mas propõe um método de leitura de sua tradução que visa, ainda mais, a contemplação e quase oração com a bíblia. Pela beleza do texto e pelo método e notas explicativas é também muito útil para quem é pregador. Por isso a colocamos numa categoria especial.

Observação: É muito útil para pregadores leigos e ordenados, principalmente se seguirem o método indicado no início da bíblia pelo Pe. Alonso Schökel. Daí indicarmos para pregadores, além de estudo e oração.

Fonte: Instituto Religioso Nova Jerusalém

2 comentários sobre “Que Bíblia devo adquirir?

  1. Interessante, a minha Bíblia, é das Edições Paulinas. Eu fico imaginando uma Bíblia mais simplificada, de modo que ao ler eu possa entender com mais facilidade. Até por que amo as Parábolas, que eu leio utilizo a minha Bíblia também para os encontros semanais de oração.

    • Olá Iracy! Eu entendo o seu desejo, mas também não podemos compreender algo que necessita de um aprofundamento simplificando demais os textos, por mais simples que eles possam parecer. Um abraço e que Deus lhe abençoe! 🙂

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